REFLEXÕES
DE UM MESTRANDO – A CULTURA DIGITAL
Diante da grande
quantidade de autores versando sobre o tema e, das diferentes opiniões
emitidas, tento mostrar nestas reflexões, minhas observações sobre a cultura
digital, cibe cultura ou cultura virtual, termos cunhados pelos diferentes
pensadores.
O
que é Digital
Em 1948, três físicos
americanos descobriram o efeito transistor (transferência de
resistência), cabendo a John Bardeen, líder do grupo, a láurea de ganhar o
nobel de física em 1956 por essa descoberta e, mais tarde, o nobel de 1972, por
pesquisas ligadas a supercondutividade.
Mas, por que estou
tratando desse feito aqui? Bom primeiro porque o transistor pode “funcionar” de
duas maneiras diferentes: a primeira como amplificador (função nobre, sem a
qual não teríamos condições, por exemplo, de ouvir rádio e nem assistir
televisão, só para dar alguns exemplos).
A segunda forma de
funcionar é como uma chave, ou seja, ligando e desligando, dessa forma,
os engenheiros perceberam a grande possibilidade de usá-lo para gerar
sinais digitais, ou seja, sinais que podem assumir somente dois
estados, na situação citada: ligado/desligado ou 0 e 1.
Dessa forma qualquer forma
de comunicação, quer seja, escrita, em áudio ou em vídeo, pode ser transmitida,
pois a base, a tecnologia, o meio, é único.
É claro que resumimos
muitíssimo essa forma de funcionamento do transistor, mas, foi assim que essa
descoberta possibilitou num futuro muito próximo, em torno de 1970, a
construção de componentes chamados circuitos integrados, a base para a
posterior construção dos microprocessadores e nano chips,
componentes fundamentais para o funcionamento dos computadores digitais de última
geração.
Comunicação
Massiva
Para que haja um processo
de comunicação, qualquer que seja ele é necessário a presença de pelo menos quatro
agentes, quais sejam: emissor, receptor, mensagem e o meio.
Durante todo caminhar da
humanidade, os três primeiros agentes não sofreram mudanças significativas, há
de existir sempre um transmissor e um receptor, e a mensagem, apesar de alterar
a forma de seu envio (meio), é sempre a expressão de uma interação humana.
Mas, o meio, esse sim,
sofreu profundas mudanças no decorrer do tempo e das diversas eras que
acompanharam a evolução cultural humana: oral, escrita, impressa, de massa,
midiática e a cultura digital, isso de acordo com Lúcia Santaella em seu livro:
“Culturas e Artes do Pós-Humano: da cultura das mídias à cibercultura”. (2003).
A nossa análise inicia-se
com a cultura chamada de “massa”, onde há uma imposição da informação
e da cultura por meio de grandes grupos de comunicação, a informação é
direcionada e não deixa o receptor interagir, é linear, pode trazer elementos
de falseamento dos fatos, visto que é do interesse estratégico dos grandes
oligopólios a manutenção do status quo, baseado em elevados índices de
audiência, atingindo o grande número de ouvintes, leitores e telespectadores.
Sobressaem-se nessa era o
rádio, jornais e televisão analógica.
No Brasil temos como
expoente máximo dessa era as telenovelas, oriundas da televisão, que até hoje,
são a programação principal de um determinado grupo de comunicação.
O interessante em
observarmos esse tipo de comunicação é o efeito que ela produz na maioria do
povo brasileiro, que fica “vinculado” há uma cultura visual, massiva, que lança
tendências, moda, expressões idiomáticas, ou seja, que influencia diretamente
no modus vivendi.
Não devemos também deixar
de enaltecer a grande contribuição que esse meio (televisão), trouxe para nosso
país, onde praticamente há um aparelho desses por habitante, essa forma de
comunicação ajudou até no próprio processo de alfabetização da maioria do povo,
que com programas do tipo “Telecurso”, patrocinados pelo governo federal,
possibilitou a geração de conteúdos alfabetizadores que alcançaram grande parte
da população, principalmente em locais remotos.
Por outro lado
diferentemente da televisão, o rádio, teve um declínio em sua atuação, isso se
deve principalmente ao aparecimento da televisão, por motivos óbvios, a tevê
tem um apelo midiático mais interessante. Mas, é significativo ouvir os grandes
“comunicadores” do rádio, os programas que incluíam até novelas, as narrações
esportivas onde os locutores esportivos incrementavam suas narrativas com um
modo peculiar, eletrizante, movimentado.
Mesmo com o surgimento do
rádio FM, atualmente, esse meio de comunicação perde terreno a cada
dia, apenas sobrevivendo em seu esplendor, nos rincões desse país.
Lembro-me de minha
infância onde havia o domínio do rádio, naquela época o único meio de
recebermos informações, de contatarmos com o meio exterior.
Alguns autores preconizam
seu fim, entretanto, pessoalmente, acho que o rádio sobreviverá por algum
tempo.
Cultura
Midiática
Concordo com Santaella,
quando ela diz que essa é uma fase intermediária entre a cultura massiva e a
cultura digital.
Essa cultura (cultura das
mídias) é o primeiro passo, ainda que tímido, na direção de um processo de
comunicação onde há um mínimo de interação do receptor com a mensagem
transmitida, como exemplo, temos as fitas cassetes, os vídeo cassetes os
equipamentos de leitura e imagem de filmes, as fotocopiadoras os DVD´S, e etc.
Esse tipo de cultura tem
uma vida curta em termos de aplicação de seus processos, onde alguns dos seus
ícones até já desapareceram do mercado, a exemplo da fita cassete e do filme VHS.
Inclusive, posso me
considerar uma vítima dessa “fast cultura”, pois, por algum tempo, fui
proprietário de uma Locadora de filmes, e, tive que abandonar esse mercado em
função da concorrência desleal da “pirataria”, um mal que digamos assim, foi um
acompanhante infiel dessa cultura midiática.
Cultura
Digital
“Se
você tiver uma maçã e eu tiver uma maçã, e trocarmos as maçãs, então cada um
continuará com uma maçã. Mas e você tiver uma ideia e eu tiver uma ideia, e
trocarmos estas ideias, então cada um de nós terá duas ideias”.
George
Bernard Shaw
Cultura Digital ou
Cibercultura ou Cultura Virtual, são expressões utilizadas hoje para designar a
cultura do acesso, da interação completa do receptor com a mensagem, da
realidade virtual, da busca dispersa, alinear, randômica, fragmentada,
individualizada da informação.
Tendo como expoente a
internet (www), e como características a sua possibilidade de acesso de todos
os pontos da terra, por sua condição de se plugar em rede, requerendo um tipo
de receptor mais engajado mais imersivo e reflexivo, diria mesmo, mais
consciente das suas relações com a sociedade, nos mais diversos aspectos que
essa relação pode alcançar.
Aqui também quero
manifestar minha discordância com relação a nobre autora (Lúcia Santaella),
quando em seu livro: “culturas e artes do pós-humano”. Da cultura das mídias à
cibercultura. Resumo (2003), em um determinado trecho da página (25-26 / 2003),
afirma:
“Ora, mídias são meios, e meios, como o próprio nome diz, são
simplesmente meios, isto é, suportes materiais, canais físicos, nos quais as
linguagens se corporificam e através dos quais transitam.
Por isso mesmo, o veículo
meio, ou mídia de comunicação é o componente mais superficial, no sentido de ser aquele que primeiro
aparece no processo comunicativo.
Não
obstante sua relevância para o estudo desse processo, veículos são meros,
tecnologias que estariam esvaziadas de sentido não fossem as mensagens que nelas
se configuram. Consequentemente, processos comunicativos,...................,pois
a mediação primeira não vem das mídias, mas dos signos, linguagem e pensamento,
que elas veiculam.”
Conotar meios (mídias)
como “componente
superficial” é no mínimo um equívoco de conceito, pois, façamos um
exercício de questionamento ao contrário: há condição da mensagem ser veiculada
sem um meio? Há possibilidade de uma mensagem ser veiculada no vácuo, por
exemplo? A resposta é não, portanto, não devemos superficializar a importância
do veículo que transmite a mensagem, a informação.
É tão importante o meio,
quanto à mensagem, que o imbricamento dos dois tem levado ao sucesso da cultura
digital, produzindo a convergência das outras mídias, num processo de
confraternização geral de todas as formas de comunicação e de cultura, esse
processo híbrido, realça os componentes importantes de cada processo cultural e
mais ainda, o esforço que tem sido feito no sentido desses expoentes se
aperfeiçoarem para acompanhar a dinâmica da evolução da interação da cultura
com a sociedade.
A despeito de todas as
facilidades que essa cultura propicia aos receptores, exemplificando algumas:
possibilidade de acessar conteúdos escolares, inclusive para pesquisas, interações
em comunidades específicas, sites de relacionamento pessoal, possibilidades de
empregabilidade via WEB, informações
“on line”, uma possibilidade da qual eu agradeço todos os dias, a de não ir a
agências bancárias para resolver qualquer pendência com essas instituições, e
muitas outras.
Essas interações têm institucionalizadas
as mais variadas formas de se produzir, transmitir, assimilar e reproduzir
todas as formas de cultura, trazendo consigo também, os infortúnios que são
inerentes a cada revolução (revolução digital) que acontece na humanidade,
principalmente, na relação com a sociedade.
Quais seriam esses
infortúnios: a alegada falta de interação “face to face”, entre os
ciberculturos que os conduzem a processos de reclusão domiciliar, afetando em
alguns casos o relacionamento social, a propagação de bullyng pela internet, o
uso dessa rede para práticas sadomasoquistas e masoquistas com relação ao sexo,
a exposição de relações íntimas de indivíduos ávidos por exposição midiática,
ao elevado índice de obesidade que já se alastra nos indivíduos infantis e
adolescentes de nosso país, onde há uma relação de três crianças em dez, com
alto índice de sobrepeso, devido ao elevado número de horas à frente de vídeo
games interativos ou mesmo a televisão digital, etc.
De qualquer forma as
vantagens da cultura digital, cibercultura ou cultura virtual, são
infinitamente maiores que seus infortúnios, daí a sua popularização em ordem
geométrica, ressalvando, que em nosso país, há um potencial ainda a ser explorado
no tocante ao número de receptores.