terça-feira, 5 de junho de 2012

INCLUSÃO E EXCLUSÃO SOCIAL X INCLUSÃO E EXCLUSÃO DIGITAL


INCLUSÃO E EXCLUSÃO SOCIAL X  INCLUSÃO E EXCLUSÃO DIGITAL

De todos os temas propostos pela Professora Bonilla na disciplina: Educação, Comunicação e Tecnologias (EDC A33), este, sem dúvida, foi o que deu mais trabalho para escrever sobre. Parece incrível, pois, essas noções parecem simples e os conceitos parecem tão óbvios.

Entretanto à medida que avançava nas leituras propostas, mais indagações do que certezas, passavam pela minha cabeça.

É claro que para isso contribuiu a confusão de conceitos dos autores, ou melhor, não temos conceitos definidos para esses termos. Cada autor parte de uma linha de raciocínio que os leva a conclusões distintas, embaralhando o entendimento do que vem a ser inclusão e exclusão social vinculado à exclusão e inclusão digital.

A bipolaridade das expressões e os contextos que são utilizados para explica-los, também, confundem. Mas, vou tentar enveredar pelo caminho da análise textual e me furtar a emitir comentários próprios, alguns em concordância com alguns autores, outros, alicerçados nas minhas vivências e das observações que tenho a partir do mundo “pós-moderno” em que vivemos, onde a globalização impera e o mercado impõe regras duras, às vezes cruéis, àqueles indivíduos que estão à margem da sociedade dita capitalista.

Não sei por que tenho a impressão de que evoluímos na tecnologia  -  hoje, temos produtos, equipamentos, componentes, processos, etc., que facilitam nossa vida e nos fazem “ganhar tempo” (se isso é possível), nas mais variadas atividades do nosso dia a dia, como exemplo, gosto de citar sempre a ida a uma instituição financeira (um banco) a cerca de trinta anos atrás perdíamos um tempo danado enfrentando filas para fazer um simples pagamento (não que hoje não o percamos), mas, atualmente, temos a possibilidade de fazermos várias operações financeiras utilizando a internet, o que nos deixa “tempo” para realizarmos outras tarefas rotineiras, isso mais adiante usarei par referir-me a outro conceito – mas, em contra partida, parece que involuímos nos relacionamentos sociais, deixamos de sermos mais cortezes, diria mesmo, menos educados, mais intransigentes, mais violentos, menos compaixão com nossos irmãos abandonados à sorte, enfim, “menos humanos”.

É claro que isso é uma observação própria, carecendo de fundamento científico, mas, como disse antes, vou expor meu ponto de vista.

Para corroborar com o que penso, extraio um parágrafo do artigoAS ARMADILHAS DA EXCLUSÃO”: UM DESAFIO PARA A ANÁLISE - Mônica Peregrino / UERJ/UFF, que diz:



“Um homem cai de um prédio”. Desesperado, tenta diminuir a angústia da queda, repetindo a cada andar que se vai: “até aqui tudo bem”, “até aqui tudo bem”, “até aqui tudo bem”... Ele não leva em conta que em seu caso, o importante não é a queda. É a hora da aterrissagem.



Nenhuma história ilustra como essa, a permanente insegurança social dos tempos presentes. Nenhuma ilustra também, de forma tão crua, o sentimento de impotência que nos acompanha cotidianamente. Uma sensação de que o controle do destino nos foge. De que as regularidades da história escapam-nos por entre os dedos. De que a sociedade e suas relações são constituídas de pequenos fragmentos irredutíveis, onde “o econômico” transforma-se numa entidade independente e adversa. Todas essas sensações coroadas pela onipresença do mercado: inferno e paraíso desses estranhos dias.



Vivemos hoje uma época em que as incertezas do cotidiano, aliadas a nossa aparente incapacidade de antevermos o futuro, mergulha-nos em uma espécie de “presente contínuo”, em que a desesperança parece a mais fiel aliada da dificuldade de antevermos utopias.



E assim vamos vivendo, ora anestesiados pelo contato diário com a contínua degradação das condições de vida à nossa volta, afirmando em eco o mantra de nossa impotência a cada “andar” perdido na queda interminável; ora aterrorizados pelos “sinais de terra”, anúncio de que a aterrissagem protelada finalmente se aproxima.



É exatamente assim que enxergo a realidade atual, onde pressupostos materialistas, consumistas, baseados em um marketing absurdamente frenético, impõe às regras do capital.



Mas, o que isso tem a ver com o nosso tema? Bom, primeiro entendo que a análise  feita pela professora Bonilla e Paulo Cesar de Oliveira, no artigo “INCLUSÃO DIGITAL: AMBIGUIDADES EM CURSO”, em que propõem  discutir o termo exclusão social, para em seguida relacioná-lo a inclusão social.



Depois, analisar os sentidos atribuídos aos termos exclusão e inclusão digital, para então situá-los frente às dinâmicas sociais e políticas contemporâneas, me parece mais apropriado para diminuir a salada de conceitos expostos pelos mais renomados autores do tema.



Assim, entendo que o conceito de Exclusão Social está intimamente ligado ao de Inclusão Social, onde o sistema capitalista exclui massas de indivíduos supostamente despreparados e desqualificados, para torna-los em seguida, sujeitos passíveis de um processo de Inclusão.



É claro que nesse processo de Exclusão Social, o componente tecnológico tem um grande peso, as novas tecnologias baseadas na automação industrial têm contribuído para alijar do mercado hordas de trabalhadores que não tiveram a oportunidade de qualificar-se, esses trabalhadores agora ditos excluídos, são submetidos a cursos qualificantes profissionais para novamente poder incluir-se no mercado.



No caso do Brasil onde temos uma grande massa da população ainda em estado de total Exclusão Social, o governo brasileiro tenta minorar essa situação com políticas compensatórias, tanto no âmbito trabalhista como no educacional, políticas discutíveis é verdade, mas, que de certa maneira tem contribuído para possibilitar Inclusão Social.



Um dos conceitos de Exclusão que me chamou atenção foi o de José de Souza Martins, que observa:

“O Capitalismo, na verdade desenraiza e brutaliza a todos, exclui a todos. Na sociedade capitalista essa é a regra estruturante.: todos nós, em vários momentos de nossa vida, e de diferentes modos, dolorosos ou não, fomos desenraizados e excluídos. É própria dessa lógica de exclusão, a inclusão. A sociedade capitalista desenraiza, exclui, para incluir, incluir de outro modo, segundo suas próprias regras, segundo sua própria lógica.” (Martins, 1997, p.32).

E sobre os conceitos de Inclusão e Exclusão digital, o que nos possibilitou entender, primeiro, que na minha visão não podemos desvincular o conceito de Inclusão digital do conceito de Inclusão Social, ou será o contrário?

Como apresenta Lemos:

“Discutir inclusão digital é um assunto espinhoso, que nos obriga a discutir políticas que compreendam o acesso às novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) como elementos de inclusão social em sentido amplo (economia política, mercado, hábitos sociais, profissões...). No livro Cidade Digital (LEMOS, 2007), apresentamos um modelo de análise e de implementação de projetos de inclusão digital. Ele parte do princípio de que a inclusão digital não é alcançada apenas quando se dá computadores ou acesso à internet, mas quando o indivíduo é colocado em um processo mais amplo de exercício pleno de sua cidadania. A inclusão digital deve, consequentemente, ser pensada de forma complexa, a partir do enriquecimento de quatro capitais básicos: social, cultural, intelectual e técnico”.

Várias ações têm sido levantadas pelo governo brasileiro, no sentido de incluir digitalmente a população brasileira, ainda com uma grande parcela longe dos computadores e da internet. Programas como UCA (Um Computador por Aluno), PNBL (Plano Nacional de Banda Larga), e outros, têm sido pensados para diminuir essa defasagem, bem projetados, bem planejados, porém, mal executados, mal implementados, ou às vezes encontrando dificuldades na sua implementação por contingências do mercado, leia-se operadoras de telecomunicação que monopolizam o serviço.

Vários autores associam a Exclusão Social à Exclusão digital, na Bahia um levantamento feito pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI), em 2004, encontramos a associação entre exclusão social e digital de forma bastante clara: “Os elevados índices de pobreza e desigualdade indicam que uma parte significativa da população na Bahia não tem condições de acessar as tecnologias [...] Na verdade a exclusão digital e a exclusão social são fenômenos estreitamente associados”. (BAHIA, 2004).

Marie Anne Macadar e Nicolau Reinhard (2002, p.1) afirmam, por exemplo, que “não há dúvida que a exclusão digital aprofunda a exclusão socioeconômica”.



Sérgio Amadeu da Silveira (2001, p. 18) reforça essa abordagem explicando que “a exclusão digital impede que se reduza a exclusão social, uma vez que as principais atividades econômicas, governamentais e boa parte da produção cultural da sociedade vão migrando para a rede".



Bom, de tudo que li e de tudo que percebo da vida, fica claro, que independente da conceituação teórica, a sociedade mundial tem dois grandes desafios: Primeiro, incluir socialmente milhões de seres humanos nessa babilônica teia da globalização, seres que estão como “exército de reserva”, que provavelmente terão pouca ou nenhuma possibilidade de viver dignamente.



Segundo, incluir digitalmente outros milhões de seres humanos para que possam usufruir de um direito básico do cidadão, a comunicação, talvez, essa condição, possa diminuir o impacto do primeiro.


domingo, 3 de junho de 2012

Com acesso ampliado, desperdício de tempo é novo abismo digital


Crianças pobres passam mais tempo brincando na internet do que usando tecnologia para fins educativos

The New York Times | 03/06/2012 07:02:11

O termo "exclusão digital" surgiu na década de 1990 para descrever aqueles que não tinham acesso à tecnologia. A questão inspirou muitos esforços para levar as mais recentes ferramentas de computação para todos os americanos, particularmente às famílias de baixa renda.

Esses esforços diminuíram a exclusão, mas criaram um efeito colateral inesperado, surpreendente e preocupante para pesquisadores e formuladores de políticas, algo que o governo agora quer consertar.

Foto: NYTAlejandro Zamora, 13 anos, se considera um "maluco pelo Facebook" (11/05)

À medida que o acesso a dispositivos eletrônicos se espalhou, as crianças de famílias mais pobres começaram a passar consideravelmente mais tempo do que as crianças de famílias mais ricas na frente destes aparelhos. Seja para assistir programas ou jogar e se conectar a redes sociais, revelam os estudos.

Este crescente desperdício de tempo, segundo os pesquisadores e formuladores de políticas, é mais um reflexo da capacidade dos pais de monitorar e limitar como as crianças utilizam a tecnologia do que de acesso a ela.

"Não sou contra a tecnologia em casa, mas ela não ajuda", disse Laura Robell, diretora da Escola Elmhurst, uma escola pública em East Oakland, Califórnia, que há muito tempo duvida do valor de colocar um computador em cada casa sem a supervisão adequada.

O novo abismo provocou tamanha preocupação que a Comissão Federal de Comunicações está considerando gastar US$ 200 milhões para criar um corpo de alfabetização digital.

Este grupo de centenas, talvez milhares de formadores será espalhado em escolas e bibliotecas para ensinar os pais e alunos a usar os computadores de maneira mais produtiva. A comissão também vai enviar estes formadores a organizações voltadas a ajudar grupos de baixa renda como a Liga dos Cidadãos Unidos da América Latina e a Associação Nacional para o Avanço dos Negros.

Esses esforços complementam alguns projetos privados e estatais destinados a pagar por instrutores para ensinar desde coisas básicas como o funcionamento de um teclado e o processamento de texto, até como utilizar sites de busca de empregos ou aplicar filtros para impedir que crianças vejam pornografia online.

As autoridades afirmam que ainda querem colocar dispositivos de computação nas mãos de todos os americanos. O vão permanece grande.

Mas "o acesso não é uma panaceia", disse Danah Boyd, pesquisadora-sênior da Microsoft. "Sozinho, ele não resolve problemas, mas amplia problemas existentes que estamos ignorando."

Como outros pesquisadores e formuladores de políticas, Boyd disse que o empurrão inicial para diminuir o abismo digital não considerou como os computadores seriam usados para entretenimento. "Não conseguimos prever isso", disse ela.

Por Matt Richtel