INCLUSÃO E EXCLUSÃO SOCIAL X INCLUSÃO E EXCLUSÃO DIGITAL
De todos os temas propostos pela Professora
Bonilla na disciplina: Educação, Comunicação e Tecnologias (EDC A33), este, sem
dúvida, foi o que deu mais trabalho para escrever sobre. Parece incrível, pois,
essas noções parecem simples e os conceitos parecem tão óbvios.
Entretanto à medida que avançava nas leituras
propostas, mais indagações do que certezas, passavam pela minha cabeça.
É claro que para isso contribuiu a confusão de
conceitos dos autores, ou melhor, não temos conceitos definidos para esses
termos. Cada autor parte de uma linha de raciocínio que os leva a conclusões
distintas, embaralhando o entendimento do que vem a ser inclusão e exclusão
social vinculado à exclusão e inclusão digital.
A bipolaridade das expressões e os contextos
que são utilizados para explica-los, também, confundem. Mas, vou tentar
enveredar pelo caminho da análise textual e me furtar a emitir comentários
próprios, alguns em concordância com alguns autores, outros, alicerçados nas
minhas vivências e das observações que tenho a partir do mundo “pós-moderno” em
que vivemos, onde a globalização impera e o mercado impõe regras duras, às
vezes cruéis, àqueles indivíduos que estão à margem da sociedade dita
capitalista.
Não sei por que tenho a impressão de que
evoluímos na tecnologia - hoje, temos produtos, equipamentos,
componentes, processos, etc., que facilitam nossa vida e nos fazem “ganhar
tempo” (se isso é possível), nas mais variadas atividades do nosso dia a dia,
como exemplo, gosto de citar sempre a ida a uma instituição financeira (um
banco) a cerca de trinta anos atrás perdíamos um tempo danado enfrentando filas
para fazer um simples pagamento (não que hoje não o percamos), mas, atualmente,
temos a possibilidade de fazermos várias operações financeiras utilizando a
internet, o que nos deixa “tempo” para realizarmos outras tarefas rotineiras,
isso mais adiante usarei par referir-me a outro conceito – mas, em contra
partida, parece que involuímos nos relacionamentos sociais, deixamos de sermos
mais cortezes, diria mesmo, menos educados, mais intransigentes, mais
violentos, menos compaixão com nossos irmãos abandonados à sorte, enfim, “menos
humanos”.
É claro que isso é uma observação própria,
carecendo de fundamento científico, mas, como disse antes, vou expor meu ponto
de vista.
Para corroborar
com o que penso, extraio um parágrafo do artigo “AS ARMADILHAS DA EXCLUSÃO”: UM DESAFIO PARA A ANÁLISE - Mônica Peregrino / UERJ/UFF, que diz:
“Um homem cai de um prédio”. Desesperado, tenta diminuir a angústia da
queda, repetindo a cada andar que se vai: “até aqui tudo bem”, “até
aqui tudo bem”, “até aqui tudo bem”... Ele não leva em conta que em
seu caso, o importante não é a queda. É a hora da aterrissagem.
Nenhuma história ilustra como essa, a permanente insegurança social dos
tempos presentes. Nenhuma ilustra também, de forma tão crua, o sentimento de
impotência que nos acompanha cotidianamente. Uma sensação de que o controle do
destino nos foge. De que as regularidades da história escapam-nos por entre os
dedos. De que a
sociedade e suas relações são constituídas de pequenos fragmentos irredutíveis,
onde “o econômico” transforma-se numa entidade independente e adversa. Todas
essas sensações coroadas pela onipresença do mercado: inferno e paraíso desses
estranhos dias.
Vivemos hoje uma época em que as incertezas do cotidiano, aliadas a
nossa aparente incapacidade de antevermos o futuro, mergulha-nos em uma espécie
de “presente contínuo”, em que a desesperança parece a mais fiel aliada da
dificuldade de antevermos utopias.
E assim vamos vivendo, ora anestesiados pelo contato diário com a
contínua degradação das condições de vida à nossa volta, afirmando em eco o
mantra de nossa impotência a cada “andar” perdido na queda interminável; ora
aterrorizados pelos “sinais de terra”, anúncio de que a aterrissagem protelada
finalmente se aproxima.
É exatamente assim que enxergo a realidade atual, onde pressupostos
materialistas, consumistas, baseados em um marketing absurdamente frenético,
impõe às regras do capital.
Mas, o que isso tem a ver com o nosso tema? Bom, primeiro entendo que a
análise feita pela professora Bonilla e
Paulo Cesar de Oliveira, no artigo “INCLUSÃO
DIGITAL: AMBIGUIDADES EM CURSO”, em
que propõem discutir o termo exclusão social, para em
seguida relacioná-lo a inclusão social.
Depois, analisar
os sentidos atribuídos aos termos exclusão e inclusão digital, para então
situá-los frente às dinâmicas sociais e políticas contemporâneas, me parece
mais apropriado para diminuir a salada de conceitos expostos pelos mais
renomados autores do tema.
Assim, entendo
que o conceito de Exclusão Social está intimamente ligado ao de Inclusão Social,
onde o sistema capitalista exclui massas de indivíduos supostamente
despreparados e desqualificados, para torna-los em seguida, sujeitos passíveis
de um processo de Inclusão.
É claro que nesse processo de Exclusão Social, o componente tecnológico
tem um grande peso, as novas tecnologias baseadas na automação industrial têm
contribuído para alijar do mercado hordas de trabalhadores que não tiveram a
oportunidade de qualificar-se, esses trabalhadores agora ditos excluídos, são
submetidos a cursos qualificantes profissionais para novamente poder incluir-se
no mercado.
No caso do Brasil onde temos uma grande massa da população ainda em
estado de total Exclusão Social, o governo brasileiro tenta minorar essa situação
com políticas compensatórias, tanto no âmbito trabalhista como no educacional,
políticas discutíveis é verdade, mas, que de certa maneira tem contribuído para
possibilitar Inclusão Social.
Um dos conceitos de Exclusão que me chamou atenção foi o de José de Souza
Martins, que observa:
“O Capitalismo, na verdade desenraiza e brutaliza a
todos, exclui a todos. Na sociedade capitalista essa é a regra estruturante.:
todos nós, em vários momentos de nossa vida, e de diferentes modos, dolorosos
ou não, fomos desenraizados e excluídos. É própria dessa lógica de exclusão, a
inclusão. A sociedade capitalista desenraiza, exclui, para incluir, incluir de
outro modo, segundo suas próprias regras, segundo sua própria lógica.” (Martins,
1997, p.32).
E sobre os conceitos de Inclusão e Exclusão digital, o que nos
possibilitou entender, primeiro, que na minha visão não podemos desvincular o
conceito de Inclusão digital do conceito de Inclusão Social, ou será o contrário?
Como apresenta Lemos:
“Discutir inclusão digital é um
assunto espinhoso, que nos obriga a discutir políticas que compreendam o acesso
às novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) como elementos de
inclusão social em sentido amplo (economia política, mercado, hábitos sociais,
profissões...). No livro Cidade Digital (LEMOS,
2007), apresentamos um modelo de análise e de implementação de projetos de
inclusão digital. Ele parte do princípio
de que a inclusão digital não é alcançada apenas quando se dá computadores ou
acesso à internet, mas quando o indivíduo é colocado em um processo mais amplo
de exercício pleno de sua cidadania. A
inclusão digital deve, consequentemente, ser pensada de forma complexa, a
partir do enriquecimento de quatro capitais básicos: social, cultural, intelectual
e técnico”.
Várias ações têm sido levantadas pelo governo brasileiro, no sentido de
incluir digitalmente a população brasileira, ainda com uma grande parcela longe
dos computadores e da internet. Programas como UCA (Um Computador por Aluno), PNBL
(Plano Nacional de Banda Larga), e outros, têm sido pensados para diminuir essa
defasagem, bem projetados, bem planejados, porém, mal executados, mal implementados,
ou às vezes encontrando dificuldades na sua implementação por contingências do
mercado, leia-se operadoras de telecomunicação que monopolizam o serviço.
Vários autores associam a Exclusão Social à Exclusão digital, na Bahia
um levantamento feito pela Secretaria de Ciência,
Tecnologia e Inovação (SECTI), em 2004, encontramos
a associação entre exclusão social e digital de forma bastante clara: “Os
elevados índices de pobreza e desigualdade indicam que uma parte significativa
da população na Bahia não tem condições de acessar as tecnologias [...] Na verdade a exclusão digital e a exclusão social são fenômenos
estreitamente associados”. (BAHIA, 2004).
Marie
Anne Macadar e Nicolau Reinhard (2002, p.1) afirmam, por exemplo, que “não há
dúvida que a exclusão digital aprofunda a exclusão socioeconômica”.
Sérgio
Amadeu da Silveira (2001, p. 18) reforça essa abordagem explicando que “a
exclusão digital impede que se reduza a exclusão social, uma vez que as
principais atividades econômicas, governamentais e boa parte da produção cultural
da sociedade vão migrando para a rede".
Bom,
de tudo que li e de tudo que percebo da vida, fica claro, que independente da
conceituação teórica, a sociedade mundial tem dois grandes desafios: Primeiro, incluir
socialmente milhões de seres humanos nessa babilônica teia da globalização,
seres que estão como “exército de reserva”, que provavelmente terão pouca ou
nenhuma possibilidade de viver dignamente.
Segundo,
incluir digitalmente outros milhões de seres humanos para que possam usufruir
de um direito básico do cidadão, a comunicação, talvez, essa condição, possa
diminuir o impacto do primeiro.
