segunda-feira, 19 de março de 2012

REFLEXÕES DE UM MESTRANDO: José Santana Melo de Souza
A respeito do: Vídeo com reflexões do pensador Zygmunt Bauman e textos dos professores, Maria Helena Bonilla e Alex Primo.
Diante das propostas de leitura escrita textual e “leitura visual” de um vídeo, temos mais um a vez o debate entre os caminhos que a educação vem travando desde os primórdios do processo de adequação do conhecimento, à realidade em que esse mesmo conhecimento se insere na sociedade.
A sempre polêmica criada pelo desenvolvimento da sociedade à base de um conhecimento tecnicista, instrumentalista, individual, caracterizado pela análise do todo em partes elementares, mais uma vez é citada como uma mentalidade decadente e fora de uso.
Porém, não devemos esquecer que essa mentalidade levou-nos ao estágio atual da civilização, dita moderna, mesmo com todos os seus paradoxos e conceitos não apropriados para o pós-modernismo, foi sem dúvida essa concepção que hoje nos permite conceber novos caminhos de desenvolvimento, sustentado em ideias que nos permitem colocar as relações humanas como “front” para as novas demandas sociais.
A “leitura do vídeo Diálogos com Zygmunt Bauman” é fenomenal, mostra como a simplicidade de suas abordagens são abrangentes e relatam a dicotomia em que vivemos hoje, se por um lado às tecnologias emergentes como a popularização da internet, das redes sociais, do mundo interdependente etc., colocam o ser humano numa rede de relacionamentos quantitativos, mas, será que qualitativos?
O mundo pós-moderno deve encarar essas novas tecnologias como aliadas no processo de democratizar ou socializar o conhecimento, mas, há um questionamento: Será que essas novas tendências tecnológicas serão um modismo? Como muitos que já foram criados por estruturas sociais dominantes?
Na medida em que esses novos tempos de pós-modernidade se apresentam à sociedade, há necessidade das instituições sociais primárias também se prepararem para o advento desse novo contexto.
Diante dos acontecidos conflitos entre professores e alunos, com os primeiros sendo agredidos fisicamente, moralmente e até em alguns casos perdendo suas vidas, alguns autores atribuem aos mestres à incapacidade de dialogar com os seus alunos, à incapacidade de se adequar as novas demandas originadas pelo desenvolvimento tecnológico, porém, há de se perguntar? A culpa é somente dos mestres?
Como experiência de minha atividade docente prática, venho observando cada vez mais a necessidade dos mestres terem uma nova habilidade: O de mediar conflitos existenciais de seus alunos diante de um abandono cada vez mais frequente dos pais em relação à educação familiar dos filhos. Será que cabe aos mestres também essa tarefa?
Ainda que nosso país tenha se desenvolvido economicamente (sexta economia mundial), ainda temos grandes bolsões de pobreza que trazem alunos às escolas com toda sorte de demandas sociais, esses alunos muitas vezes carregam consigo um histórico de necessidades especiais de atendimento psicológico, acolhimento social e acompanhamento permanente por setores pedagógicos. Portanto, todos esses fatores afetam esse relacionamento professor / aluno.
Ademais o mundo pós-moderno criou uma situação inusitada, apesar da possibilidade dos milhões de contatos pela rede (internet, Orkut, rede social, twitter, etc.), noto um dilema de autonomia individual, um problema que classifico de identidade social, onde os protagonistas necessitam se entrelaçar para conviver num ambiente salutar. O conectar/desconectar é a tônica das relações na rede, mas, diante da facilidade da possibilidade do desconectar, essas relações são muito efêmeras, fáceis de serem desfeitas, portanto, de certa forma, criando um ambiente virtual social.
Também não podemos deixar de mencionar que essa mesma tecnologia digital pode trazer graves problemas para a sociedade, haja vistas o que ocorreu com a ONG “Invisible Children” que buscava ajudar pessoas supostamente abusadas pelo líder de uma guerrilha, suspeita de arrecadar dinheiro pela Web e não utilizar para o fim proposto.
E as relações dos cidadãos com a política e com o estado? Vejo também a necessidade de um aperfeiçoamento nessas instituições, o papel do estado enquanto instituição social que mais se aproxima dos anseios de seus cidadãos está defasado, como mencionou o sociólogo Bauman, o estado tem transferido parte de suas atribuições à iniciativa privada, deixando de atender por muitas vezes as necessidades básicas dos cidadãos. Não que estejamos defendendo um estado socialista, mas, essa situação é decorrente da própria inércia dessa instituição perante os avanços tecnológicos e as novas demandas.
Outro dilema que vivemos atualmente e que sempre nos acompanhará, e que pela primeira vez vejo um cientista social mencionar: A preocupação com a questão ambiental é colocada como uma necessidade a ser estudada e discutida pela sociedade, perante os desdobramentos das atividades exploratórias que o consumo desenfreado, expoente da economia na visão capitalista/modernista, criou.
E a escola? Como está posicionada perante essa pós-modernidade? Essa escola sempre seguiu os ditames dos poderes constituintes e sempre refletiu um conteúdo mecanicista, baseado no domínio exclusivo do especialista que em última instância era o dono do conhecimento científico, que dominava a realidade e que impunha seu domínio sobre esse real.
Essa escola quer se antenar com essa nova realidade e precisa se reinventar para receber alunos ávidos por todo tipo de conhecimento.
Porém, os conteúdos precisam levar em conta o ambiente onde essa escola está inserida, as necessidades de seu público alvo as novas práticas pedagógicas o uso das novas tecnologias digitais como perspectiva de difundir o conhecimento são, requisitos básicos para que essa nova escola encontre seu rumo.
É importante ressaltar o caráter que agora, a informação tem mão dupla, pode e deve também vir de fora para dentro com todas as consequências e implicações que esse trânsito pode trazer, daí porque o conteúdo pedagógico não pode ser mais imposto de fora para dentro, ele deve ser discutido e implementado visando às características singulares de cada espaço.
Quanto às tecnologias digitais que sem sombras de dúvidas são grandes auxiliares na difusão do conhecimento, devem ser implementadas, é certo, porém, há necessidade da formação de professores que possam dominar essas tecnologias, sem o quê ficará depositada em almoxarifados a mercê do tempo, como tenho visto em muitas escolas.
Para concluirmos observo que uma das grandes diferenças entre a concepção moderna e a pós-moderna, ou contemporânea, está na valorização do trabalho coletivo em detrimento da concepção moderna, que adotava a imagem do gênio individual. O ser pós-modernista sabe reconhecer o esforço do coletivo e busca compartilhar informações e resultados.

Um comentário:

  1. Muito bem José,
    vc levanta várias questões polêmicas, fundamentais para o debate e a compreensão do contexto social e educacional. Vamos ao debate... fica o convite a todos!!!

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