quinta-feira, 11 de outubro de 2012

SOFTWARE LIVRE, É LIVRE, MESMO?

     Como de costume vou ater-me aos fatos que envolvem essa discussão e, não, os conceitos que na maioria das vezes retratam interesses; de mercado, acadêmicos e de publicação, ainda mais nessa área!!!!!
 
      Entretanto, devemos entender o que significa  o conceito de  "software livre" . Na aula da Profª Bonilla ficou claro e muito claro que software livre é quando temos acesso ao "programa fonte ou "código fonte" ou ao "software proprietário", esse acesso permite interagirmos, modificarmos, estabelecer novas aplicações a um software desenvolvido. É óbvio que essa noção de liberdade, acessibilidade, alteridade e outras "dades", não interessam as grandes corporações que atuam nesse setor, a exemplo da gigante americana "Microsoft", que tudo fazem com a anuência do governo americano, no sentido de desacreditar e desestimular o uso de um software livre.
 
     Particularmente tive experiências não muito boas com essa questão de propriedade intelectual, que retratarei em poucas linhas: trabalhei em uma empresa (privada e familiar) onde a maioria dos seus equipamentos (máquinas), eram adquiridas de um fabricante alemão líder no mercado mundial, esses equipamentos eram comprados num contrato de "know How" que dava ao fabricante além da venda do equipamento básico, garantia de venda de todas as peças sobressalentes, contratos de manutenção exclusiva e uma total exclusividade no software que vinha junto com um equipamento eletrônico chamado PLC (Programable Logic Controled), ou, em português, Controlador Lógico Programável, equipamento esse que controlava todas as funções da máquina desde o controle das variáveis como pressão, temperatura, até as questões operacionais e de produtividade, ou seja, era o cérebro. Esse PLC, era programável numa linguagem de automação muito utilizada chamada de linguagem Ladder, o problema todo era que esse programa era do tipo "proprietário", então, só podíamos alterar com a permissão do fabricante, mas, como essas máquinas eram vendidas para o mundo todo não havia especificidade para o comprador o que implicava  sempre na necessidade de se alterar partes do mesmo para adequá-lo às nossas conveniências operacionais. Entretanto, o engenheiro alemão que participava do start up (partida) do equipamento em nossa fábica quase sempre não tinha conhecimento de como fazer essas modificações, e que por necessidades de compromissos já assumidos de entrega de produção, carecia de uma resolução rápida do problema, portanto, eu e minha equipe de técnicos eram os que resolvíamos a pendenga. O engraçado que mesmo resolvendo a questão era o pessoal da Alemanha que "on line", fazia as correções com nossas alterações e não tínhamos acesso algum ao programa fonte. Provavelmente nossa solução era incorporada ao programa fonte e vendida com outras máquinas, a um novo comprador que tivesse o mesmo padrão de produção. No final das contas trabalhávamos de graça para essa empresa alemã, tentei argumentar com nossa diretoria no sentido de que esse trabalho revertesse se não para nós que resolvíamos o problema, para a empresa numa negociação de valores, descontos, etc., mas, o contrato permitia essa postura do fabricante alemão e isso continuou até o dia em que me neguei a fazer esse procedimento.
 
        Essa situação real mostra como os desenvolvedores de software atuam impondo suas regras principalmente aos países em desenvolvimento, fiquei estarrecido com a informação de que em 2010, se não estou enganado, houve uma transferência de divisas no valor de 5 (cinco) bilhões de dólares pagos a essas grandes companhias em licenças de software utilizados só pelo governo federal brasileiro. É uma quantia absurda que poderia seu usada na solução de alguns problemas sociais básicos do Brasil.
 
        Mas essa situação enseja numa grande discussão que ao meu ver vai um pouco adiante dessa utilização, que reafirmo importante; utilização do software livre. Refiro-me à necessidade imperiosa que o país tem de desenvolver políticas que facilitem à criação de empresas nacionais que possam na medida do possível fazer frente a esses grandes fornecedores mundiais e também focar em centros educacionais que possam formar engenheiros de softwares, programadores, pesquisadores que possam criar suportes básicos para essas empresas. Não podemos ficar também à sombra de softwares livres desenvolvidos fora do país, pois isso também não agrega conhecimento nem desenvolvimento.
 
         E na escola? Como podemos incentivar nossos jovens a participar desse movimento? Também temos um problema de formação, pois, nossos professores não têm aptidão alguma (ou melhor, não foram treinados), para incrementar o uso de um software livre, como também os computadores adquiridos já vem com outras plataformas (na maioria Windows) que por uso frequente, são normalmente utilizados.
 
         Concluindo acho importantíssimo que implementemos, indiquemos, trabalhemos, com os softwares livres, como uma forma de reação a essa situação posta e imposta pelos grandes fabricantes mundiais, também como uma possibilidade de contrabalancearmos essa grande desigualdade tecnológica entre países ricos e pobres.
 
      
 
 
     

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

SOBRE ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

Muito se houve falar de alfabetização no cotidiano, por exemplo: o Brasil tem uma taxa de alfabetização de X% ou de analfabetismo de Y%, muito pouco se fala sobre letramento, a não ser nos círculos acadêmicos, notadamente, os relacionados aos linguistas.
 
Não vou entrar muito no mérito dos conceitos, vou escrever das minhas observações feitas ao longo dos meus anos (poucos), em sala de aula, observações essas, que terão um cunho bastante crítico da realidade vivida e presenciada.

Por mais que tenhamos uma oferta maior de possibilidades de fala e escrita, atualmente,  com a possibilidade da comunicação digital, o hipertexto e outros, observo uma dificuldade gritante dos alunos do nível médio, em escrever, dissertar e ler textos, interpretar questões, etc.

Não sei se isso tem ou não haver com o processo  de alfabetização, o fato é que essa constatação salta aos olhos, talvez, o modelo imposto pelo banco mundial onde a quantidade de alunos supostamente alfabetizados traduzidos em números, injeta mais recursos financeiros nos países, seja o fator preponderante para apenas olharmos esse processo todo, como números.

Mas, o que quer dizer ambos os termos: letramento, refere-se aos usos da língua escrita, não somente na escola, mas, em qualquer lugar, num ponto de ônibus, no comércio no serviço público, no trabalho, etc.
 
Como ressalta Magda Soares, em seu atexto, Letramento e Alfabetização: As muitas facetas.
 
"Destaca a diferença fundamental, que está no grau de ênfase posta nas relações entre as práticas sociais de leitura e de escrita e a aprendizagem do sistema de escrita, ou seja, entre o conceito de letramento e o conceito de alfabetização", onde podemos perceber que letramento é um conceito mais geral e nada tem a ver com método, entretanto, podemos associar alfabetização ao método, método de alfabetizar x, y, z, etc.
 
Esses dois conceitos têm implicações com o nível de desenvolvimento econômico e social de um país.
 
Por exemplo, nos países desenvolvidos fala-se muito em letramento, visto que, a maioria da população é alfabetizada (domina basicamente leitura e escrita), porém, não consegue entender ou interpretar um texto, nem tão pouco escrever de forma clara.
 
No caso dos países em desenvolvimento, caso do Brasil, há um grande contigente de pessoas que  sequer são alfabetizadas (não lêem ou escrevem), portanto, um número maior de pessoas não possuem letramento, o que muitos chamam de "analfabetos funcionais".
 
Analisando as últimas informações disponibilizadas pelo Censo de 2010 (os mais recentes disponíveis) mostram que 9,6% da população brasileira – um total de 13,9 milhões de brasileiros com mais de 15 anos – não sabem ler ou escrever.

Um estudo realizado recentemente na Universidade de São Paulo (USP) dá vida aos números apontados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) como o perfil da maioria dos analfabetos do País. Ele mostra que a história de exclusão educacional dessas pessoas ainda na infância está ligada ao lugar onde a maioria morava: o campo.
 
Não só o acesso às escolas dificultou a alfabetização, como também a cultura passada de pai para filho.  
 
A maioria dos analfabetos é idosa e cresceu no campo. Os filhos, porém, estudam.
A vida posterior na cidade, no entanto, os impediu de reproduzir o pensamento dos pais: os filhos dos entrevistados não fazem parte das estatísticas do analfabetismo. “O estudo mostrou que as exigências do mundo do trabalho nas cidades fizeram com que eles passassem a valorizar a educação e a vissem como ferramenta de mobilidade social. Por isso, eles colocaram os filhos na escola e muitos ainda tentam estudar”,.
Mas, há um outro "bom fenômeno"  registrado pelas estatísticas oficiais: a redução do analfabetismo entre jovens. Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2010 mostram que, nos últimos 10 anos, a taxa de analfabetismo entre jovens com 15 a 24 anos recuou de 10,1% para 4,6%. A grande maioria (92,6%) dos analfabetos brasileiros tem mais de 25 anos.

Entre os idosos (com 60 anos ou mais), o movimento foi inverso. A quantidade de analfabetos cresceu. Em 1999, 34,4% da população desse grupo não sabiam ler nem escrever e, dez anos depois, chegou a 42,6%. Os dados também revelam que 40,7% da população rural é analfabeta funcional – não consegue compreender o que lê. Na área urbana, a porcentagem é de 16,7%.


Bom pelo que se percebe há um trabalho árduo para reduzirmos esses números negativos da educação brasileira, cabe a todos os envolvidos, uma parcela mínima de sacrifício no enfrentamento dessa questão, entretanto, não podemos conceber que o MEC , lance um livro para leitura nas primeiras séries do ensino básico com um título de  “Nós pega o peixe”, ensina o livro didático de língua portuguesa “Por uma vida melhor”, de Heloísa Ramos. Essa com certeza não é melhor das alternativas de se buscar resolver a problemática. Esse livro, felizmente, teve sua distribuição suspensa pela presidente, diga-se, em boa hora.



sábado, 29 de setembro de 2012

INCLUSÃO DIGITAL E EXCLUSÃO DIGITAL - PARTE II

Escrever sobre "inclusão digital" nos remete inicialmente a entender o conceito proposto, conceito esse que é oriundo da necessidade e do momento político que atravessa a sociedade.
 
Esse conceito para muitos estudiosos, impróprio, significa "inserir" pessoas excluídas normalmente à margem da sociedade por condições sociais adversas, fruto do modelo econômico vigente.
 
Entretanto essa "inserção", necessariamente significa incluir pessoas num modelo já posto e estabelecido por instituições que monopolizam  a tecnologia digital, sem o cuidado de observar as características sócio econômicas, culturais, ambientais, estruturais e de diversidade  dessa "massa de excluídos". Pois, devemos levar em conta também, ser o Brasil um país continental e com grande desigualdade social.
 
No Brasil, o estabelecimento de um política de "inclusão digital", primeiramente parte do pressuposto de distribuir equipamentos (computadores) às escolas, sem a necessidade de formar professores e gestores na utilização dessa nova tecnologia para o desenvolvimento de um processo pedagógico ensino aprendizagem, inovador, deixando de lado os conteúdos formais até então vigentes (e ainda continuam) característicos do que podemos chamar de uma "velha escola".
 
Prestemos atenção ao texto extraído da "Apresentação do Livro Verde" do MCT (Ministério da Ciência e Tecnologia - Setembro de 2000):







"Na era da Internet, o Governo deve promover a universalização do acesso e o uso crescente dos meios eletrônicos de informação para gerar uma administração eficiente e transparente em todos os níveis. A criação e manutenção de serviços equitativos e universais de atendimento ao cidadão contam-se entre as iniciativas prioritárias da ação pública. Ao mesmo tempo, cabe ao sistema político promover políticas de inclusão social, para que o salto tecnológico tenha paralelo quantitativo e qualitativo nas dimensões humana, ética e econômica. A chamada “alfabetização digital” é elemento-chave nesse quadro".
 
Esse texto mostra a exata dimensão que o governo tinha à época quando criou a política   que contém as metas de implementação do Programa Sociedade da Informação e constitui uma súmula consolidada de possíveis aplicações de Tecnologias da Informação.
 
Nele vemos claramente a preocupação de atendimento aos serviços e usos dos meios eletrônicos a serem extendidos à população, sem, entretanto, mencionar o uso dessas tecnologias para "alfabetizar", essa mesma população.
 
Nada se fala no uso dessas tecnologias no sentido de aproveitar sua potencialidade para incrementar programas voltados para incentivar a prática pedagógica, treinamento de professores e educadores para uma nova era de conquistas do saber, para um novo modelo de relacionamento nas salas de aulas, como uma nova possibilidade de alfabetizar uma massa de pessoas excluídas do processo formal.
 
Como exemplo de aplicação vejamos o caso do Estado da Bahia e, verifiquemos o enorme potencial de inserir essas tecnologias no auxílio para tentar reduzir esse enorme contigente de analfabetos que o estado possui:

População: 4.016.906 (2010)


População em idade escolar: 3.569.004 (2010)
 

Taxa de analfabetismo: 10 a 14 anos: 6,1% / 15 ou mais: 16,6%


 

                                    
Fonte: IBGE (Censo Demográfico 2010)


 
  que nem tudo são flores quando se fala no uso da TIC´S como agente de promoção e facilitação no processo ensino/aprendizagem. Nos países desenvolvidos, já se consegue detectar um novo fenômeno, que com acesso ampliado, o desperdício de tempo é o novo abismo digital.
 
Nos EUA, crianças pobres passam mais tempo brincando na internet do que usando tecnologia para fins educativos.

O termo "exclusão digital" surgiu na década de 1990 para descrever aqueles que não tinham acesso a tecnologia. A idéia era evidar esforços no sentido de levar as famílias de baixa renda as mais recentes ferramentas de computação.



Esses esforços diminuíram a exclusão, mas criaram um efeito colateral inesperado, surpreendente e preocupante para pesquisadores e formuladores de política, algo que o governo agora quer consertar.


Á medida que o acesso a dispositivos eletrônicos se espalhou, as crianças de famílias mais pobres começaram a passar consideravelmente mais tempo do que as crianças de famílias mais ricas na frente destes aparalhos. Seja para assistir programas ou jogar e se conectar a redes sociais, revelam os estudos
 Este crescente desperdício de tempo, segundo os pesquisadores e formuladores de políticas, é mais um reflexo da capacidade dos pais de monitorar e limitar como as crianças utilizam a tecnologia do que de acesso a ela.
O novo abismo provocou tamanha preocupação que a Comissão Federal de Comunicações está considerando gastar milhões de dólares para criar um corpo de alfabetização digital.
Este grupo de milhares de formadores será espalhado em escolas e bibliotecas para ensinar os pais e alunos a usar os computadores de maneira mais produtiva.
Como outros pesquisadores e formuladores de políticas, Boyd disse que o empurrão inicial para diminuir o abismo digital não considerou como os computadores seriam usados para entretenimento. "Não conseguimos prever isso", disse ela.
 
É o caso de se perguntar se tal fenômeno já não está acontecendo no Brasil?
O caso americano pode ser adotado no Brasil no que tanje à criação de um corpo de alfabetização digital?
 
Esses quetionamentos devem ser levados em consideração quando se quer debater seriamente Inclusão/Exclusão digital, no Brasil.

Uma outra variante é o custo do acesso, segundo a UNESCO, esses valores variam e muito, com o nível de desenvolvimento social dos países, se não, vejamos:
 

A variedade de ferramentas disponíveis certamente resultou no acesso mais fácil à informação e ao conhecimento, porém muitas pessoas têm este acesso negado devido à geografia ou à condição social. O custo anual de uma conexão à Internet, por exemplo, representa 1,2% do salário médio nos Estados Unidos, enquanto corresponde a 191% do salário médio em Bangladesh e 278% no Nepal.
A UNESCO reconhece a importância do acesso à informação e, portanto, apóia ações que visam dar às populações mais oportunidades de contribuir e de ter acesso aos fluxos de informação e conhecimento, rumo ao desenvolvimento da sociedade da informação.




 
 


terça-feira, 5 de junho de 2012

INCLUSÃO E EXCLUSÃO SOCIAL X INCLUSÃO E EXCLUSÃO DIGITAL


INCLUSÃO E EXCLUSÃO SOCIAL X  INCLUSÃO E EXCLUSÃO DIGITAL

De todos os temas propostos pela Professora Bonilla na disciplina: Educação, Comunicação e Tecnologias (EDC A33), este, sem dúvida, foi o que deu mais trabalho para escrever sobre. Parece incrível, pois, essas noções parecem simples e os conceitos parecem tão óbvios.

Entretanto à medida que avançava nas leituras propostas, mais indagações do que certezas, passavam pela minha cabeça.

É claro que para isso contribuiu a confusão de conceitos dos autores, ou melhor, não temos conceitos definidos para esses termos. Cada autor parte de uma linha de raciocínio que os leva a conclusões distintas, embaralhando o entendimento do que vem a ser inclusão e exclusão social vinculado à exclusão e inclusão digital.

A bipolaridade das expressões e os contextos que são utilizados para explica-los, também, confundem. Mas, vou tentar enveredar pelo caminho da análise textual e me furtar a emitir comentários próprios, alguns em concordância com alguns autores, outros, alicerçados nas minhas vivências e das observações que tenho a partir do mundo “pós-moderno” em que vivemos, onde a globalização impera e o mercado impõe regras duras, às vezes cruéis, àqueles indivíduos que estão à margem da sociedade dita capitalista.

Não sei por que tenho a impressão de que evoluímos na tecnologia  -  hoje, temos produtos, equipamentos, componentes, processos, etc., que facilitam nossa vida e nos fazem “ganhar tempo” (se isso é possível), nas mais variadas atividades do nosso dia a dia, como exemplo, gosto de citar sempre a ida a uma instituição financeira (um banco) a cerca de trinta anos atrás perdíamos um tempo danado enfrentando filas para fazer um simples pagamento (não que hoje não o percamos), mas, atualmente, temos a possibilidade de fazermos várias operações financeiras utilizando a internet, o que nos deixa “tempo” para realizarmos outras tarefas rotineiras, isso mais adiante usarei par referir-me a outro conceito – mas, em contra partida, parece que involuímos nos relacionamentos sociais, deixamos de sermos mais cortezes, diria mesmo, menos educados, mais intransigentes, mais violentos, menos compaixão com nossos irmãos abandonados à sorte, enfim, “menos humanos”.

É claro que isso é uma observação própria, carecendo de fundamento científico, mas, como disse antes, vou expor meu ponto de vista.

Para corroborar com o que penso, extraio um parágrafo do artigoAS ARMADILHAS DA EXCLUSÃO”: UM DESAFIO PARA A ANÁLISE - Mônica Peregrino / UERJ/UFF, que diz:



“Um homem cai de um prédio”. Desesperado, tenta diminuir a angústia da queda, repetindo a cada andar que se vai: “até aqui tudo bem”, “até aqui tudo bem”, “até aqui tudo bem”... Ele não leva em conta que em seu caso, o importante não é a queda. É a hora da aterrissagem.



Nenhuma história ilustra como essa, a permanente insegurança social dos tempos presentes. Nenhuma ilustra também, de forma tão crua, o sentimento de impotência que nos acompanha cotidianamente. Uma sensação de que o controle do destino nos foge. De que as regularidades da história escapam-nos por entre os dedos. De que a sociedade e suas relações são constituídas de pequenos fragmentos irredutíveis, onde “o econômico” transforma-se numa entidade independente e adversa. Todas essas sensações coroadas pela onipresença do mercado: inferno e paraíso desses estranhos dias.



Vivemos hoje uma época em que as incertezas do cotidiano, aliadas a nossa aparente incapacidade de antevermos o futuro, mergulha-nos em uma espécie de “presente contínuo”, em que a desesperança parece a mais fiel aliada da dificuldade de antevermos utopias.



E assim vamos vivendo, ora anestesiados pelo contato diário com a contínua degradação das condições de vida à nossa volta, afirmando em eco o mantra de nossa impotência a cada “andar” perdido na queda interminável; ora aterrorizados pelos “sinais de terra”, anúncio de que a aterrissagem protelada finalmente se aproxima.



É exatamente assim que enxergo a realidade atual, onde pressupostos materialistas, consumistas, baseados em um marketing absurdamente frenético, impõe às regras do capital.



Mas, o que isso tem a ver com o nosso tema? Bom, primeiro entendo que a análise  feita pela professora Bonilla e Paulo Cesar de Oliveira, no artigo “INCLUSÃO DIGITAL: AMBIGUIDADES EM CURSO”, em que propõem  discutir o termo exclusão social, para em seguida relacioná-lo a inclusão social.



Depois, analisar os sentidos atribuídos aos termos exclusão e inclusão digital, para então situá-los frente às dinâmicas sociais e políticas contemporâneas, me parece mais apropriado para diminuir a salada de conceitos expostos pelos mais renomados autores do tema.



Assim, entendo que o conceito de Exclusão Social está intimamente ligado ao de Inclusão Social, onde o sistema capitalista exclui massas de indivíduos supostamente despreparados e desqualificados, para torna-los em seguida, sujeitos passíveis de um processo de Inclusão.



É claro que nesse processo de Exclusão Social, o componente tecnológico tem um grande peso, as novas tecnologias baseadas na automação industrial têm contribuído para alijar do mercado hordas de trabalhadores que não tiveram a oportunidade de qualificar-se, esses trabalhadores agora ditos excluídos, são submetidos a cursos qualificantes profissionais para novamente poder incluir-se no mercado.



No caso do Brasil onde temos uma grande massa da população ainda em estado de total Exclusão Social, o governo brasileiro tenta minorar essa situação com políticas compensatórias, tanto no âmbito trabalhista como no educacional, políticas discutíveis é verdade, mas, que de certa maneira tem contribuído para possibilitar Inclusão Social.



Um dos conceitos de Exclusão que me chamou atenção foi o de José de Souza Martins, que observa:

“O Capitalismo, na verdade desenraiza e brutaliza a todos, exclui a todos. Na sociedade capitalista essa é a regra estruturante.: todos nós, em vários momentos de nossa vida, e de diferentes modos, dolorosos ou não, fomos desenraizados e excluídos. É própria dessa lógica de exclusão, a inclusão. A sociedade capitalista desenraiza, exclui, para incluir, incluir de outro modo, segundo suas próprias regras, segundo sua própria lógica.” (Martins, 1997, p.32).

E sobre os conceitos de Inclusão e Exclusão digital, o que nos possibilitou entender, primeiro, que na minha visão não podemos desvincular o conceito de Inclusão digital do conceito de Inclusão Social, ou será o contrário?

Como apresenta Lemos:

“Discutir inclusão digital é um assunto espinhoso, que nos obriga a discutir políticas que compreendam o acesso às novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) como elementos de inclusão social em sentido amplo (economia política, mercado, hábitos sociais, profissões...). No livro Cidade Digital (LEMOS, 2007), apresentamos um modelo de análise e de implementação de projetos de inclusão digital. Ele parte do princípio de que a inclusão digital não é alcançada apenas quando se dá computadores ou acesso à internet, mas quando o indivíduo é colocado em um processo mais amplo de exercício pleno de sua cidadania. A inclusão digital deve, consequentemente, ser pensada de forma complexa, a partir do enriquecimento de quatro capitais básicos: social, cultural, intelectual e técnico”.

Várias ações têm sido levantadas pelo governo brasileiro, no sentido de incluir digitalmente a população brasileira, ainda com uma grande parcela longe dos computadores e da internet. Programas como UCA (Um Computador por Aluno), PNBL (Plano Nacional de Banda Larga), e outros, têm sido pensados para diminuir essa defasagem, bem projetados, bem planejados, porém, mal executados, mal implementados, ou às vezes encontrando dificuldades na sua implementação por contingências do mercado, leia-se operadoras de telecomunicação que monopolizam o serviço.

Vários autores associam a Exclusão Social à Exclusão digital, na Bahia um levantamento feito pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI), em 2004, encontramos a associação entre exclusão social e digital de forma bastante clara: “Os elevados índices de pobreza e desigualdade indicam que uma parte significativa da população na Bahia não tem condições de acessar as tecnologias [...] Na verdade a exclusão digital e a exclusão social são fenômenos estreitamente associados”. (BAHIA, 2004).

Marie Anne Macadar e Nicolau Reinhard (2002, p.1) afirmam, por exemplo, que “não há dúvida que a exclusão digital aprofunda a exclusão socioeconômica”.



Sérgio Amadeu da Silveira (2001, p. 18) reforça essa abordagem explicando que “a exclusão digital impede que se reduza a exclusão social, uma vez que as principais atividades econômicas, governamentais e boa parte da produção cultural da sociedade vão migrando para a rede".



Bom, de tudo que li e de tudo que percebo da vida, fica claro, que independente da conceituação teórica, a sociedade mundial tem dois grandes desafios: Primeiro, incluir socialmente milhões de seres humanos nessa babilônica teia da globalização, seres que estão como “exército de reserva”, que provavelmente terão pouca ou nenhuma possibilidade de viver dignamente.



Segundo, incluir digitalmente outros milhões de seres humanos para que possam usufruir de um direito básico do cidadão, a comunicação, talvez, essa condição, possa diminuir o impacto do primeiro.


domingo, 3 de junho de 2012

Com acesso ampliado, desperdício de tempo é novo abismo digital


Crianças pobres passam mais tempo brincando na internet do que usando tecnologia para fins educativos

The New York Times | 03/06/2012 07:02:11

O termo "exclusão digital" surgiu na década de 1990 para descrever aqueles que não tinham acesso à tecnologia. A questão inspirou muitos esforços para levar as mais recentes ferramentas de computação para todos os americanos, particularmente às famílias de baixa renda.

Esses esforços diminuíram a exclusão, mas criaram um efeito colateral inesperado, surpreendente e preocupante para pesquisadores e formuladores de políticas, algo que o governo agora quer consertar.

Foto: NYTAlejandro Zamora, 13 anos, se considera um "maluco pelo Facebook" (11/05)

À medida que o acesso a dispositivos eletrônicos se espalhou, as crianças de famílias mais pobres começaram a passar consideravelmente mais tempo do que as crianças de famílias mais ricas na frente destes aparelhos. Seja para assistir programas ou jogar e se conectar a redes sociais, revelam os estudos.

Este crescente desperdício de tempo, segundo os pesquisadores e formuladores de políticas, é mais um reflexo da capacidade dos pais de monitorar e limitar como as crianças utilizam a tecnologia do que de acesso a ela.

"Não sou contra a tecnologia em casa, mas ela não ajuda", disse Laura Robell, diretora da Escola Elmhurst, uma escola pública em East Oakland, Califórnia, que há muito tempo duvida do valor de colocar um computador em cada casa sem a supervisão adequada.

O novo abismo provocou tamanha preocupação que a Comissão Federal de Comunicações está considerando gastar US$ 200 milhões para criar um corpo de alfabetização digital.

Este grupo de centenas, talvez milhares de formadores será espalhado em escolas e bibliotecas para ensinar os pais e alunos a usar os computadores de maneira mais produtiva. A comissão também vai enviar estes formadores a organizações voltadas a ajudar grupos de baixa renda como a Liga dos Cidadãos Unidos da América Latina e a Associação Nacional para o Avanço dos Negros.

Esses esforços complementam alguns projetos privados e estatais destinados a pagar por instrutores para ensinar desde coisas básicas como o funcionamento de um teclado e o processamento de texto, até como utilizar sites de busca de empregos ou aplicar filtros para impedir que crianças vejam pornografia online.

As autoridades afirmam que ainda querem colocar dispositivos de computação nas mãos de todos os americanos. O vão permanece grande.

Mas "o acesso não é uma panaceia", disse Danah Boyd, pesquisadora-sênior da Microsoft. "Sozinho, ele não resolve problemas, mas amplia problemas existentes que estamos ignorando."

Como outros pesquisadores e formuladores de políticas, Boyd disse que o empurrão inicial para diminuir o abismo digital não considerou como os computadores seriam usados para entretenimento. "Não conseguimos prever isso", disse ela.

Por Matt Richtel

domingo, 27 de maio de 2012

O PODER DOS QUIETOS

O Poder dos Quietos

1a. edição, 2012
Susan Cain
Agir
Um dos livros mais vendidos do ano nos Estados Unidos segundo o jornal  The New York Times, O poder dos quietos, da americana Susan Cain,  lançado no Brasil pela Editora Agir, mostra que a introversão é  ingrediente fundamental para a criatividade e a inovação. Embasada por  estudos científicos, além de ter realizado um extenso trabalho de  pesquisa, a autora afirma que nossa sociedade vem transformando escolas e  escritórios em instituições dedicadas a extrovertidos - arquétipo que  tem se revelado um grande desperdício de talento, energia e felicidade.
O sistema de valores contemporâneo segue a crença de que todos  precisariam se sentir confortáveis sob a luz dos holofotes. A  introversão vem sendo encarada como um traço de personalidade de segunda  classe, praticamente como uma patologia. O que o leitor descobre em O  poder dos quietos é que está cometendo um erro grave ao abraçar esse  ideal. Algumas das maiores ideias humanas - da teoria da evolução aos  girassóis de Van Gogh e os computadores pessoais - vieram de pessoas  quietas que sabiam como se comunicar com seus universos interiores. Sem  os introvertidos não haveria a teoria da relatividade, os noturnos de  Chopin, o Google.
O temperamento extrovertido é atraente, mas, segundo Susan, foi  transformado em um padrão opressivo que muitos, mesmo contra sua própria  essência, se acham obrigados a adotar. Tal ponto de vista surge  fundamentado pelas mais recentes pesquisas nas áreas da psicologia e da  neurociência, que têm apresentado ideias iluminadoras: os introvertidos,  por exemplo, sentem-se confortáveis com menos estímulo, como quando  resolvem palavras cruzadas ou leem um livro; já os extrovertidos gostam  da vibração extra de atividades como conhecer pessoas novas e esquiar em  montanhas perigosas.
Especialistas afirmam também que os dois tipos trabalham de maneiras  diferentes. Os extrovertidos tendem a terminar tarefas em pouco tempo,  tomando decisões rápidas, enquanto os introvertidos costumam atuar de  forma mais lenta e ponderada, focando-se em uma tarefa de cada vez.  "Pessoas introvertidas são pensadores atentos e reflexivos, capazes de  tolerar a solidão que a produção de ideias requer. A implementação  dessas boas ideias, por sua vez, implica em cooperação, e introvertidos  são mais propensos a preferir ambientes cooperativos, enquanto os  extrovertidos costumam favorecer a competição", afirma a autora.
Na primeira parte do livro, Susan trata justamente do "Ideal da  Extroversão", abordando o poder do trabalho solitário e o mito da  liderança carismática. A questão do que chamamos de "temperamento" surge  como ponto central do módulo seguinte, que, mostrando que introvertidos  e extrovertidos pensam e processam dopamina de maneiras distintas,  envolve biologia e estudos de personalidade. Já na parte três o assunto  recebe um olhar cultural em um debate que envolve amor, trabalho e  educação - sempre por meio de uma acurada e delicada observação do dia a  dia.
O livro esclarece ainda algumas dúvidas comuns, mostrando que um  introvertido não é necessariamente um eremita ou um misantropo. Nem  mesmo a palavra "timidez" pode ser tida como um sinônimo de  "introversão": esta é o medo da desaprovação social e da humilhação,  enquanto aquela é a preferência por ambientes onde não predominam os  estímulos externos. Ao contrario da introversão, a timidez é  inerentemente dolorosa.
Assim com acontece com outros opostos complementares (masculinidade e  feminilidade, Ocidente e Oriente, liberais e conservadores), a  humanidade seria irreconhecível sem a divisão entre introvertidos e  extrovertidos. Poetas e filósofos têm pensando sobre o assunto desde o  início dos tempos, sendo que os dois tipos aparecem na Bíblia e em  escritos da antiguidade clássica. O poder dos quietos, assim, leva o  leitor a se aprofundar no comportamento humano e mudar a maneira pela  qual enxerga a si mesmo.

FONTE: http://livraria.folha.com.br/catalogo/1178141/o-poder-dos-quietos

terça-feira, 15 de maio de 2012

MOBILIDADE

REFLEXÕES DE UM MESTRANDO
MOBILIDADE
Ao iniciar minhas considerações sobre o tema gostaria de me reportar ao texto postado em seu blog, pela colega Sigmar, onde, muito pertinentemente ela frisa que a mobilidade tem um aspecto da tecnologia incorporada em seu desenvolvimento e, isso, depende da miniaturização dos componentes eletrônicos, principalmente os “microprocessadores”, que são chips atuando como cérebros: recebem, processam, controlam e ativam bits de informações digitais.
A revolução da miniaturização dos componentes eletrônicos chegou com a “nanotecnologia”, possibilitando o desenvolvimento de transistores menores, a exemplo do processador Pentium 4, lançado em janeiro de 2002, trabalha com frequências de 1300 a 4000 MHz, com 55 milhões de transistores CMOS 130 nm. A série de chips Radeon 2000, por exemplo, atinge os 500 milhões de transistores, chegando à casa dos 40 nm.
 A Placa de vídeo da AMD Radeon HD 6870, lançada em outubro de 2010, trabalha com frequências de 900Mhz na CPU, 4200Mhz de frequência de Memória GDDR5 interface 256Bits, atinge os 1,7 Bilhões de transistores, com processo de fabricação de 40 nm e um Core de 255 mm2.
Com essa condição tecnológica todos os equipamentos das chamadas TIC’s, puderam ser produzidos em menor escala e com a possibilidade de convergir várias mídias em um só equipamento.
É o caso do telefone celular que no seu projeto original possibilitava apenas a comunicação por voz, atualmente, permite ao seu usuário amplas possibilidades de envio de texto (SMS), imagens, dados, etc.
E o que dizer dos computadores? Lembram-se do ENIAC? Hoje temos computadores portáteis (laptops), com os quais podemos acessar a internet por fios ou WI-FI, temos a tecnologia bluetooth, palms, GPS e tantas outras.
E quais são os impactos dessas tecnologias que permitem a mobilidade social nas cidades e nos espaços urbanos?
Nesse caso inicio a discussão com um parágrafo de André Lemos em Cidade e Mobilidade, Telefones Celulares, Funções Pós-massivas e Territórios Informacionais:
“As mídias reconfiguram os espaços urbanos, os subúrbios, os centros, dinamizam o transporte público e tornam mais complexo esse organismo-rede que são as cidades”.
A mobilidade social, a relação com o espaço urbano e as formas comunicacionais passam por transformações importantes na atual fase da sociedade da informação. O desenvolvimento dos meios de comunicação se dá na própria dinâmica da industrialização e da urbanização da era moderna.
As mídias reconfiguram os espaços urbanos, os subúrbios, os centros, dinamizam o transporte público e tornam mais complexo esse organismo-rede que são as cidades.
Mobilidade e cidade são indissociáveis. “Essa relação é uma constante, mas novas dimensões emergem com as novas tecnologias digitais e as redes telemáticas”.
O relacionamento entre essas novas mídias que são chamadas pós-massivas, pois permitem interatividade, fazem emergir novas formas sociais, desterritorializam espaços geográficos, espaços físicos característicos das mídias massivas que prendem o receptor a uma geografia de territórios.
Essas novas mídias pós-massivas criam novas formas sociais atemporais, desterritorializadas, a partir de três princípios fundamentais da cibercultura:
A liberação da emissão, a conexão generalizada e a reconfiguração das instituições e da indústria cultural de massa (Lemos, 2004, 2005).
O grande vetor da mobilidade é com certeza a tecnologia WI-FI, essa permite a evolução do binômio cidade-comunicação acompanhando o desenvolvimento das tecnologias de comunicação.
E ainda segundo Lemos:
“Se as cidades da era industrial constituem sua urbanidade a partir do papel social e político das mídias de massa, as cibercidades contemporâneas estão constituindo sua urbanidade a partir de uma interação intensa (e tensa) entre mídias de função massiva e as novas mídias de função pós-massiva”.
Nesse contexto o poder público, tem uma grande parcela de responsabilidade em prover a todos os cidadãos brasileiros a possibilidade de uso dessas novas tecnologias de comunicação digital, nesse país de dimensões continentais, há localidades distantes das grandes metrópoles, exigindo uma ação dos governantes.
Já vemos em algumas cidades do interior, principalmente, a instalação de cobertura WI-FI, possibilitando aos seus moradores acesso à internet, telefonia celular móvel e outros, que de certa forma contribuem para engajar esses brasileiros.
Também há de se destacar que a despeito do custo de banda larga e telefonia celular móvel serem absurdamente caros, o nosso país se destaca pela grande demanda de mídias pós-massivas, o que nos coloca a frente de países desenvolvidos no uso desses recursos.
Com certeza com a produção em grande escala os custos serão barateados, o que permitirá maior acesso a cada brasileiro.